First Things First
10d6: Minhas primeiras perguntas são simples, porém inevitáveis. Como foi o primeiro contato de vocês com o RPG? Que sistema passaram a utilizar? Qual a idade de vocês na ocasião? Quais recordações guardam daquela época?
Nelson: O primeiro contato foi visual. (risos) Me lembro que cheguei da escola e vi o Nélio e o Fernando abrindo uma caixa e espalhando um monte de pecinhas no chão. Pensei que fosse um jogo de tabuleiro medieval... Se a camiseta estiver certa, eu tinha uns 10 anos. (nota: ano passado fizemos uma camiseta comemorando 15 anos de RPG em Matão).
Nélio: O sistema? Foi mais ou menos assim: “mãe compra pra mim”, chorando. (risos) Bom, o primeiro contato que a gente teve foi com o RPG eletrônico, no videogame Phantasy Star. Depois a gente encontrou o tal artefato na prateleira, escrito “RPG” também e com um dragão na capa...
Nelson: Era o Hero Quest e tinha o Conan na capa, não um dragão!
Nélio: Isso! E tinha umas caveiras também. Isso me despertou curiosidade, mas eu achava que aquele seria apenas mais um jogo de tabuleiro. O que me chamou muito a atenção foram os desenhos, os simples desenhos na capa. O interessante de tudo eram as gravuras. Lembro que eu cheguei em casa, o Fernando estava saindo da escola (eu morava em frente) e eu disse: “Fernando, comprei um jogo novo!”. Eu e o Fernando brincávamos de GIJoe, então a gente criava histórias. Se bobear, eu estava na segunda série. Eu tinha problemas na escola...
Nelson: Ah! Eu tenho outra recordação. Lembro de o Fernando xingando o Nélio por não ter comprado um boneco do GIJoe e sim o jogo Hero Quest.
Perereca: Exatamente! Meu sentimento foi de repulsa. Eu falei pro Nélio “Você é burro?! Por que não comprou um bonequinho do Batman?!”. – Aquela época era o Batman?! – Lembro que o jogo foi comprado na Genial, a loja da tia do Nélio.
10d6: Tenho notado que nós rpgistas temos muito em comum, inclusive nossas infâncias... Quais eram os outros hobbies de vocês naquela época? Quais foram suas influências no inicio do processo criativo, se é que elas existiram?
Nelson: Totalmente! Jogar RPG de videogame, brincar de GIJoe interpretando... Acabou! E não foram apenas as brincadeiras que influenciaram: nossa mente já estava apta a esse tipo de coisa.
Nélio: Uma coisa que a gente brincava muito... Pegava pedaços de pau no quintal e brincava de samurai. Eu tinha uma coleção de pedaços de pau! (risos) Nessa época nossa fantasia estava no auge. A gente brincava de luta e de samurai com madeiramento.
Perereca: Tinha uma brincadeira em que a gente amarrava... (pausa) – Era um pé de limão que tinha lá no fundo? – a gente amarrava um galão de água no pé de limão e ficava chutando. A gente também brincava de luta no corredor do fundo. O Nélio era da Nintendo e eu era da Sega, ai era só fight! Já o RPG eletrônico não me influenciou. Eu não gostava do gênero na época e torcia o nariz.
Nélio: É verdade! Você jogava Mickey Mouse. (risos)
10d6: E que jogos vocês tinham naquela época?
Nelson: Todos! Atari, Master System, Turbo Game... Detalhe: a gente jogava tanto Phantasy Star alugando a fita na Odisséia, que meu pai foi lá e comprou a fita pra gente jogar.
Nélio: Lembro que eu queria o jogo do Asterix, mas meu pai voltou com o Phantasy Star.
Perereca: Não era na Odisséia que a gente pegava. Era na locadora do Gardenal. – Como chamava mesmo? – Tinha uma borracharia ao lado, hoje já demoliram toda aquela parte... Antares! Antares era o nome da locadora.
10d6: Sempre encarei o RPG como um hobbie que aproxima as pessoas (nossa amizade é prova disso). Vocês fizeram muitos amigos jogando RPG? Quem freqüentou suas primeiras mesas de jogo? Falem um pouco sobre essas pessoas.
Nélio: Nós não fizemos muitos amigos jogando RPG. Fizemos alguns, não muitos. Geralmente quem jogava com a gente já eram nossos amigos que não conheciam o RPG. Nós só mostramos o jogo para eles. O RPG serviu apenas de upgrade pra nossa amizade. (risos) O Allan, por exemplo, já era meu amigo.
Allan: Não. Eu conheci o RPG através de um amigo de escola que me falou que conhecia um cara, chamado Nelsinho, que jogava. Nessa época eu jogava RPG no Super Nintendo, só tinha o Chrono Trigger e jogava direto. Então eu falei: “Mas como funciona o RPG de mesa?”. E meu amigo disse: “Vamos lá que eu vou fazer um personagem”, e eu fui com ele. Chegando a casa do Nelsinho uma coisa me abalou mais ainda o coração: escutei uma música de metal! Foi uma das músicas de metal mais legais que eu escutei até hoje. Era Vision Divine que estava tocando! Meu deus do céu! RPG e metal foram duas coisas que marcaram minha vida...
Perereca: Um rapazão que ouvia Bon Jovi até então... (risos)
Allan: Eu fui perguntando as coisas pro Nelsinho que com seu jeito paciente foi me explicando. Então eu fiz meu primeiro personagem de D&D. Era um elfo guerreiro/mago que logo perdeu a mão, mas tudo bem, foi divertido... (risos)
Nelson: Aquelas pessoas que só queriam juntar-se ao RPG provavelmente hoje não são mais nossas amigas. As pessoas que passaram aqui em casa apenas pra jogar ou conhecer o RPG nunca mais voltaram. Eu lembro do Rafael Pokémon e seu agregado...
10d6: Vocês poderiam dividir as fases do grupo e comentar sobre essas pessoas...
Nelson: No começo, quando o Nélio ganhou o Hero Quest só jogávamos eu, ele e nossa irmã Noele. Depois nós compramos o D&D, que era aquela caixa com o dragão na capa, com a famosa arte do Jeff. Nessa época, o grupo era simples: um mestre e um jogador com cinco personagens. Depois a gente comprou o Dragon Quest. Com o tempo fomos chamando gente pra conhecer o jogo. As primeiras pessoas foram o Fernando e o Duzão. E depois começou vir mais gente.
Nélio: Quando as pessoas começaram a entrar no grupo nós jogávamos mais por diversão, sem compromisso. Por exemplo: O Nelsinho estava pronto pra mestrar e a gente começava a jogar. Qualquer um que chegasse e batesse na porta poderia arrumar um personagem e começar a jogar. Isso durou um tempão! Teve uma época em que jogávamos todo dia.
Nelson: Quando a gente se organizou pra valer, o primeiro grupo foi: o Fernando, o Daniel e o Nélio. O Nélio jogava com o Kurten, o Daniel com o Zephid e o Fernando com o Link. Foram os personagens que começaram a saga. Depois o Jão quis jogar e entrou com o Loraki. Essa fase durou um tempão também. Depois o Jão saiu, nós conhecemos o Nardinho e começamos a jogar na casa dele. Essa foi a faze do covil. AQUELE era um local pra jogar RPG! Nessa época o Rubens expulsava a gente. Era a época do Apagão Fantasy... (risos) Essa saga foi longa também. Depois começamos uma nova saga. Foi quando entrou o Meloso, que veio fazer seu personagem na minha casa (ele queria jogar com um jedi) com uma camisetinha pega-rapaz e um cordãozinho de pagodeiro. (risos) Essa parte durou pouco e o Meloso logo saiu. Eu comecei outro grupo, foi quando eu conheci o André e o Alan. Dessa vez jogaram eles dois, mais o Thiago e o Nardinho. Nessa fase, o Nélio entrou depois. Foi quando eu pedi pra ele jogar com o Acheron. Ai começou entrar um monte de gente. Entrou Meloso, Fernando, Sérgio, Val, Carapé, Cabeção... E essa saga durou mais um tempão!
10d6: É claro que eu já sei a resposta da próxima pergunta, mas nem todos os leitores do blog sabem. Quem se sobressaiu como Mestre no grupo? Por que escolher a opção mais difícil?
Nelson: Eu comecei a mestrar porque ninguém queria ler os livros. Esse foi o motivo pra eu ter começado a mestrar. Na caixa do Hero Quest vinha um manual com doze páginas. Já no D&D o manual tinha cinqüenta e poucas páginas, mais uma caixa com oitenta e poucas fichinhas. Ninguém queria ler... (risos)
Nélio: Eu... Meu português era muito ruim. Na verdade... Eu não sabia ler. (risos)
10d6: Gostaria que cada um de vocês recordasse um personagem do passado que considere marcante. Como era esse personagem?
Allan: Um personagem marcante pra mim... Eu não sabia se ele era um bicho ou se ele era humano... Era o Acheron! (risos) Tudo que ele fazia, me levava a pensar que ele era um demônio. Eu não pensava nele como um humano, e sim um cara com uma cara de dragão olhando pra mim. Nunca era um humano. Eu não imaginava o Acheron como um humano!
Nélio: O Acheron era um golem. Um golem de carne humana... (pausa) Um personagem que ficou bem legal e que eu gostei de jogar foi o Kurten. Eu o interpretava com a visão que eu tinha na época do que era certo e o que era errado. Ele era um personagem bom, mas eu não me importava muito com a tendência. Eu apenas usava meu senso de justiça na interpretação. Eu o criei para ser um líder, ele teria que ser o líder daquele grupo. Outro personagem que eu também gostei de jogar foi o Marhault Elsdragon. Ele era um clérigo bondoso. Interpretar esse personagem me fez refletir bastante. Esses dois personagens não tiveram muita glória, mas foram ricos em interpretação. Por isso foram os mais interessantes.
Perereca: Por que um?! Posso falar três personagens? – Da gloriosa época de ouro, era o Link Hendrell, que eu interpretava mais ou menos como eu era: um moleque. Naquela época, eu era impulsivo, então meu personagem agia impulsivamente, mas tinha um bom coração. O segundo personagem que eu mais gostei de jogar foi o Drakkon, porque era pra ele ser um personagem bom...
Allan: O meu personagem também, e o que aconteceu? Morreu! E quem matou?! O Drakkon!
Perereca: Não... Ele era um personagem bom, mas o poder o corrompeu. Então ele passou por todo um processo de transformação. E era muito louco! E o terceiro, já com certa maturidade minha no RPG é o Trevuls, que é um personagem foda. Mas essa já é outra época: eu estou envelhecendo igual a um elfo mesmo...
Nelson: Como mestrei desde o começo não tenho um personagem tão marcante. Mas joguei um pouco e lembro de um... Foi numa aventura em que o Nélio estava mestrando. Lembro que fui jogar os dados e os atributos saíram todos baixos e o Nélio não me deixou jogar de novo. E eu perguntei: “Você tem certeza? Eu vou esculachar...”. E ele disse “Pode esculachar”. Era D&D segunda edição, então eu escolhi um halfling/clérigo, nível máximo oito. O personagem era uma merda, um cocô ambulante... E o que eu fiz?! Comprei uma faquinha, fiquei só na moita e o primeiro PdM que eu vi dormindo eu matei. E o Nélio me deu experiência pra ir pro quarto nível na primeira aventura numa boa e personagem ficou fodão... Valeu a pena! O nome desse personagem era Willow Cigamfodnalehtni e ele tinha dois cavalos que chamavam Intraputravardaputravardamana e Rhapootzssinifroblel. (risos)
10d6: Vocês já jogaram uma aventura inesquecível? Que aventura foi essa? Vocês acham que uma grande aventura ainda está por vir em nosso grupo? Como gostariam que ela fosse?
Nelson: Vou responder com poucas palavras. Se alguma aventura não fosse inesquecível, nós não estaríamos dando essa entrevista e falando todas essas coisas.
Nélio: A aventura que acho que continua na cabeça de todos que jogaram naquele dia, foi quando nós estávamos prestes a matar o grande chefão, o último de todos, o deus... Cetrach Fellwar, O cara, entendeu? Cada ataque que ele dava, derrubava um de nós. Nossas poções estavam todas contadas. Parecia um jogo de xadrez mesmo. Em certo momento, restou apenas um personagem em pé. Com os personagens caídos, havia um anel de proteção e uma poção de cura completa, itens muito úteis para o grupo naquele momento. Se um de nós se levantasse, mataria o inimigo, que estava fraco. O personagem que estava em pé, que não possuía poder de ataque nenhum, tinha a opção de curar qualquer outro capaz em combate, mas ele escolheu... ROUBAR O ANEL! (gargalhadas gerais) Todos morreram...
Perereca: Todas as aventuras são inesquecíveis, no meu ponto de vista.
Allan: A minha foi com meu personagem, o Renzo. A gente tava tão forte por causa de alguns itens, que não estava dando chance pro mestre... O que ele fez? Colocou um PdM preparado para vir tomar nossos itens e eu não aceitei. Ele simplesmente arrancou minha mão para eu não usar meu item mais poderoso. Essa foi uma das épocas mais legais!
Nelson: Uma ultima ressalva... A diferença que está fazendo as aventuras de hoje não serem tão emocionantes quanto às aventuras de ontem: Vocês ouviram o depoimento do Nélio? Ele disse “A gente tinha que matar O cara”, esse é o jeito que os jogadores pensavam. Hoje, se constrói um PdM e os jogadores só enxergam uma planilha de números, não interpreta mais. Lembro da ultima vez que usei o Cetrach na aventura: não foi a mesma coisa. E dessa vez a cena foi bem melhor descrita, porque estou mais experiente.
Nélio: Vou dar um exemplo do tipo de personagem que era o Cetrach. Quando ele aparecia em cena os jogadores levantavam imediatamente da mesa, com gesto de quem empunha uma espada e já começavam a gritar com ele. A gente tinha muita raiva daquele cara!
10d6: Isso para o Mestre é uma glória...
Perereca: Quando o Cetrach aparecia, eu já puxava a espada, porque eu sabia que era assim: ou a gente enfrentava e caímos os três, ou ele viria atrás da gente e nos matava. Então a gente não tinha escolha... O que falta hoje em dia, que acontecia naquela época, é que a gente sabia que podia contar um com o outro. Eu podia olhar pro lado e falar: “Vamo Nélio” e o Nélio, “Vamo” – Olha! Até arrepia essas coisas – e a gente batalhava até cair ou até derrubá-lo.
Nélio: O Kurten e o Zephid tinham quatorze anos e eram amigos de infância, o Link tinha dezessete e era o campeão da vila. Todos estavam preparados pra morrer... Antigamente a gente construía os personagens todos juntos.
Perereca: Aliás, nossa história já começou trágica. Os três personagens perderam suas famílias num ataque à vila onde moravam e conseguiram escapar. A única opção para que eles sobrevivessem era a união, e foi o que aconteceu. Era uma história tão simples! Hoje em dia todos estão ficando mais individualistas...
10d6: Todos sabem que mesas de RPG costumam ser uma fonte inesgotável de cenas engraçadas. Vocês têm histórias desse tipo para contar?
Nélio: Teve uma aventura que o personagem do Fernando virou mulher porque vestiu um cinturão da feminilidade, e acabou sendo traçado pelo companheiro. (risos) Ah, e teve outra vez... Que ele virou uma ameba.
Nelson: Tinha um jogador, o Sérgio, que ninguém gostava, ou gostava demais... Sei lá, alguma coisa tinha. O fato é que certa vez, de propósito eu coloquei uma poção, que não era uma poção, era um phasm disfarçado de poção junto com outras várias, e eu deixei avisado pra todo mundo que a poção de tal cor é um phasm e pedi que fizessem que ela caísse nas mãos dele. Quando todos tomaram as poções, cada uma fazia algo: uma curava, a outra dava força, etc. O personagem do Sérgio bebeu e não aconteceu nada. Depois de um tempo, o phasm se transformou em um bicho, é claro, saiu de dentro dele, tipo o Alien. (risos) A verdade é que todas as cenas engraçadas envolviam o Sérgio...
Nélio: Lembro-me de uma vez onde batalhamos e vencemos um exército de demônios e no final da batalha o personagem dele morreu. Então, depois de ficar sabendo que ele não ganharia XP, ele olha para o Mestre com lágrimas nos olhos... (risos) Sem contar que para entrar no grupo, o personagem dele teve que passar por um corredor polonês, que foi totalmente interpretado. Um verdadeiro live action... (risos)
Obs.: Em decorrência de problemas técnicos/pessoais com o aparato de gravação utilizado, parte dessa entrevista foi perdida...

Comentários
Sem mais palavras... Obrigada por terem comprado aquela "caixa cheia de pecinhas" com um dragão...ou melhor com o Conan na capa e mais algumas caveiras...
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